domingo, 30 de julho de 2017

Filho de peixe?

A gente estava comendo num boteco, um típico PF: bife acebolado, arroz, feijão e batata frita. Tudo ia bem, até que chega um sujeito grosso, liga seu som para todo mundo ouvir e começa a escarrar no chão.

Daqui a pouco meu filho me sai com essa...

- Pai, todo boteco é igual. Tem sempre mesa de plástico da Skol, TV com jogo de futebol chato, música ruim e algum cara mal-educado.

Não consegui conter o riso, parte pela minha porção narcísica de ver ali um pedaço de mim mesmo, mas parte por percebê-lo um bom observador do cotidiano.

Pedi que exercitasse isso na escrita. Um pouco raivoso, mas é o começo para seus 12 anos. Abaixo.






O boteco

Um bar ou chamado boteco é um lugar onde pessoas vão para beber e para ver jogos de futebol.

Nesses lugares tem peculiaridades comuns entre todos eles que são­­­­­­: os velhos gordos que ficam sentados nas mesas de plástico da Skol, alguma pessoa que bota música alta e ruim, o típico idiota que cospe no chão e por último o imbecil que trata mal o garçom.

Mas nem tudo é ruim no boteco, tem alguns com comida boa.


Pedro Nogueira



terça-feira, 27 de setembro de 2016

Água rasa

Muito antes de Zygmunt Bauman alardear que a vida é líquida na pós modernidade, Marshall Berman já nos lembrou que tudo que é sólido desmancha no ar.

Mas o que isso quer dizer, essa fluidez, essa evanescência? Onde as observamos? Cotidianamente, em todas as nossas relações, sejam afetivas ou profissionais.

Uma das ideias básicas por trás do conceito é a de que as coisas se personificam e as pessoas se coisificam. Ou seja, passamos a atribuir valor demasiado às coisas, criando apego ao que é mera mercadoria, e passamos a tratar as pessoas como coisas, itens descartáveis, consumíveis.

Essa característica leva a uma outra, a transitoriedade das relações. Como tudo é consumo, até mesmo os outros seres humanos, mesmo as relações tradicionalmente mais importantes passam a ser efêmeras, descartáveis, duráveis apenas na medida em que cumpram uma utilidade. Por isso líquidas, porque não duram o tempo de se tornarem sólidas, não chegam a criar vínculo efetivo, muito menos compromisso real.

No ambiente online, de amigos de Facebook ou de grupos de whatsapp, isso fica explícito. A facilidade com que se fica “amigo” de alguém é proporcional à de terminar a “amizade”. Basta um click. Sem afeições ou explicações. Números de uma organização social que mede sucesso e felicidade estatisticamente, através de contadores de redes sociais.

Essa facilidade com o que as coisas acontecem num mundo líquido, essa velocidade de uma sociedade conectada, 24x7, tornam-se ditames, gabarito para todo o resto. Quase ninguém mais está disposto a investir tempo em se dedicar a alguma coisa para colher resultados futuros, quase ninguém mais quer se esforçar verdadeiramente para conseguir algo de valor.

Infelizmente, essa expectativa de facilidade e velocidade, vai formando uma sociedade além de líquida, rasa, superficial, óbvia. Contraditoriamente, é a sociedade do conhecimento formada por indivíduos que, em sua maioria, não querem perder tempo ou se esforçar para obtê-lo.

O sucesso e a riqueza devem acontecer de forma rápida e sem maiores esforços. Na velocidade de realizar uma transação eletrônica, na facilidade de encontrar uma explicação no Google, sem o desafio real da complexidade da vida.

Alunos universitários que, em sua maioria, não querem teoria, que não têm tempo a perder estudando nem estão dispostos a se esforçar para ler os autores no original; preferem as apostilas, os resumos. Querem o conhecimento colocado em suas cabeças de forma fácil e rápida, como um download de arquivo via Dropbox. Que acabarão por se tornar profissionais que vivem à base de citações da revista VOCÊ S/A ou do que ouviram no FANTÁSTICO, que repetem o que a massa diz num control C, control V frenético, e que usam “filosofia” como expressão pejorativa.

Mercado farto para os livros de autoajuda, que prometem receitas simples para a felicidade, para o sucesso profissional e para qualquer outro desafio humano. Bom também para os livros que prometem a fórmula mágica, em sete ou dez passos, para ser um gerente eficaz ou para ser um Líder de verdade, só precisando encontrar quem mexeu no seu queijo ou um monge não executivo. 

Ou, como a última moda, demanda inesgotável para coaches e, agora, masters coaches. Alguém que promete "desenvolver" o outro, transformar-lhe, de maneira personalizada, objetiva, prática, tudo como o mundo atual exige.

Quem está familiarizado com a proposta da caracterização das gerações e sua classificação, poderá enxergar o z, o y ou o x em cada ponto do discurso, seja no objeto ou no sujeito que o pronuncia. Isso porque o conhecimento, a ciência, partem da observação do mesmo fenômeno, usando abordagens diferentes: o indivíduo (psicologia), o homem em sociedade (sociologia) ou como garante sua sobrevivência (economia), por exemplo.

Ter a capacidade de sentir-se confortável no maelstrom, nesse turbilhão potente de relações efêmeras, de mudanças hipervelozes e de predominância do que é superficial e óbvio, é característica adaptativa relevante dos seres humanos, absolutamente útil à sobrevivência.

Para os mergulhadores, resta aprender a se divertir em água rasa.

           
             Zé Mauro Nogueira

quinta-feira, 30 de julho de 2015

A importância do feedback no mercado de trabalho para uma boa qualidade de vida

Ok, tenho de admitir, sou chato. Na verdade, acho que sou do contra: torço para o Fluminense, não gosto de ir aonde todo mundo vai, não assisto a Rede Globo, gosto de restaurante vazio, enfim, tenho lá minhas esquisitices.

Uma delas é me incomodar com um monte de coisas que todo mundo faz ou diz sem parar para pensar. E nisso entra o uso de determinadas palavras ou frases.

Feedback! Que agonia me dá ouvir essa palavra repetidamente. O pessoal de RH adora e mal consegue formular uma sentença sem ela. Acreditem, dá para desenvolver um raciocínio sem isso, basta tentar um pouquinho ...

E mercado de trabalho? Meu deus, não há uma propaganda de faculdade ou curso de inglês que não tenha essa maldita expressão. Vamos lá, gente, criatividade! Ninguém mais parece preocupado em educar, em formar, tudo se resume a qualificar para encontrar uma vaga nesse ente mítico e poderoso.

Agora, pior do que qualidade de vida não acredito que tenha. Tudo que é vendido agora é para que nós tenhamos mais qualidade de vida, de absorvente a panela. Mas o que é essa qualidade de vida? Como disse Clóvis de Barros Filho, o que existe é a vida, como ela é, qualidade é atributo de mercadoria, pelo amor de Deus!

Aliás, ficar usando essas expressões acaba virando uma obrigação e às vezes o sujeito acaba entrando em parafuso. Dia desses um candidato a uma vaga em uma empresa que assessoro foi perguntado a respeito de sua pretensão salarial e me saiu com essa: “olha, o feedback que posso dar, em função do mercado de trabalho, seria na faixa etária de R$ 2 mil, um valor que me daria uma boa qualidade de vida, com certeza”.

O próximo, por favor ...


Zé Mauro Nogueira


quarta-feira, 24 de junho de 2015

Nem barro, nem tijolo

Moro há quase 20 anos em uma cidade até bem pouco tempo considerada pequena e tranquila: Natal, a capital do Rio Grande do Norte. Mas não é bem assim. Não mais.

Natal, assim como todas as cidades brasileiras, sofre com as consequências de um processo de crescimento desordenado, não planejado, e carente de um conceito definido de urbanização e mobilidade urbana. Como diriam alguns em lá em Itajaí, cresceu à moda “caraio”.

Quando se observa o padrão americano, com exceção de Nova Iorque, fica clara uma opção pelo automóvel. Cidades grandes em extensão territorial, com um número enorme de autopistas, muito espaço e grandes distâncias. Tudo feito para se andar de carro e para os carros poderem, de fato, andar.

Quando se observa o padrão das grandes cidades europeias, fica clara uma opção pelo transporte público. Cidades mais concentradas em área ocupada, tudo um pouco mais perto, passível de se andar, mas com muitas opções de transporte público de massa e de boa qualidade, sobretudo metrô. Em cidades como Londres e Paris, ter um carro é um estorvo e um luxo.

Mas e nós, qual o nosso padrão? Nenhum! Meio que adotamos o padrão americano baseado no automóvel, mas não fizemos as vias necessárias para os carros trafegarem. E temos cidades com características parecidas com as europeias, com grande concentração demográfica, que dificultam ou impossibilitam a construção ou alargamento de vias. Só que, por traço cultural ou ranço, não priorizamos o transporte público.

O resultado é esse que nos massacra diariamente. Imobilidade urbana, seja para quem tenta ir de carro ou para quem sofre tentando ir de ônibus. E, para piorar, ainda há o jeito brasileiro de ser. Essa coisa de ser tudo “eu primeiro”, essa total e absoluta falta de respeito à coletividade, essa chaga de querer ser mais esperto o tempo todo e querer levar vantagem sobre todos os outros em cada corriqueira circunstância, que torna o trânsito no Brasil um espetáculo único de falta de educação, de prepotência e estupidez humana.

Em outras palavras, não podemos copiar os Estados Unidos, e nem nos passou pela cabeça tentar copiar a Europa. Ficamos no limbo, no pior dos dois mundos. Nem barro, nem tijolo.


Zé Mauro Nogueira




sábado, 7 de fevereiro de 2015

What´s up?

Resolvo dar uma passada pelas notícias de um grande portal e ao final de 10 minutos fecho o laptop e fico olhando o céu perder a cor. A tarde de sábado vai chegando ao fim e eu me aconchego no balanço da rede.

Fiquei muitos minutos em silêncio, apenas respirando, tentando esvaziar a cabeça, não pensar em nada, apenas desejando ter a sabedoria e a técnica budista de alcançar o estado de paz pela meditação. Ler as matérias de um grande portal e, mais ainda, os comentários das pessoas, me causou uma profunda sensação de desalento, de desconexão.

Só depois de escutar música boa e ler um pouco de Mário Quintana voltei a ter alguma esperança. No homem e na minha capacidade de me manter conectado a este mundo. A coragem de ser seletivo e a força para manter-se autêntico são a chave da sobrevivência nestes tempos de supremacia da pasteurizada idiotice exibicionista.

Falta de água, corrupção, violência e estupidez no futebol, carestia de combustível, mulheres mostrando a bunda por um minuto de fama, nada disso é novo, a despeito do que pensam os que não pensam. Lixo, de fato, mas sempre reciclado e vendido como a última novidade, de acordo com o interesse de um “pensamento” conservador, covarde, mesquinho e tacanho.

Não vejo a menor novidade na “jornalista” Silvia Pilz e seus textos preconceituosos (e ainda por cima ruins). Imbecis estão por todas as esquinas e sempre tiveram mais ou menos notoriedade. Não vejo também nenhuma novidade nessas “descobertas” de corrupção, sobretudo neste país, corrupto até a alma, desde a fila do cinema até o desconto sem nota fiscal. O que muda é o interesse e a liberdade de noticiar, coisa que essa “inteligência” toda não é capaz de perceber. Enfim, mais do mesmo (e pensar que um dia acreditamos em uma alternativa diferente....).

Talvez o que seja novo, embora não me surpreenda, é o orgulho em ser another brick in the wall. Como as pessoas adoram exibir seu “pensamento” obtido nas headlines dos maiores portais ou lidos nos perfis dos “formadores de opinião”. Porque opinião é tudo hoje. Porque imagem é tudo. Porque popularidade é tudo em tempos de redes sociais.

Eu, do meu lado, preciso aprender a ser louco, maluco total, como disse o Raulzito. Só na poesia, na música e nas artes reconheço o humano que ainda me atrai.

Zé Mauro Nogueira