sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

O clichê nosso de cada dia


Em tempos de redes sociais, de voyeurismo e exibicionismo em doses cavalares, de vidas orientadas para fora de si e para o consumo, sigo buscando uma forma de continuar (?) me encaixando. Essa sensação de não pertencimento pode facilmente deixar o sujeito rabugento, chato, antissocial. Qualquer semelhança, claro, será sempre mera coincidência!

Então, tentando encontrar leveza nesse mundo um tanto patético, vou brincar (de novo) com a forma como a gente se expõe e se comunica nesse cotidiano confuso. Claro que vou sofrer algumas críticas, mas clichê pouco é bobagem.

Vamos começar com um bom vinho? Não entendo porque sempre que se fala de vinho tem de vir precedido do adjetivo “bom”. Afinal, quem iria propor tomar um vinho ruim? Já imaginou, vamos tomar uma porcaria de vinho?

E vale para livro, música, massa e o escambau a quatro. Só ainda não vi para as coisas underground, ainda bem. Buda me livre de um dia topar com um “vamos fumar um bom beck?”. E segue a resistência.

Aliás, falando em vinho ainda, quantas pessoas sabem de fato julgar um vinho, se é bom mesmo, que tenham paladar, olfato e outras cositas mas treinadas para avaliar essa bebida tão envolvida em saberes e rituais? Eu não sei de nada. Quando bebo em restaurante e o garçom bota a mão para trás e me entrega a rolha para eu fazer sei lá o que com ela, vou direto ao ponto: amigo, pode servir direto e abrir mão do mise en scène. Alívio geral.

Mas voltando às frases feitas, a coisa fica pior quando a declaração de que se é amante de um bom vinho vem acompanhada da impressionante “apaixonada pela vida”. Fico me perguntando a intenção desse manifesto, dessa efusiva declaração de amor a algo tão natural, efêmero e óbvio. Claro que sempre se pode ser apaixonado pela morte, e talvez existam algumas tribos com essa pegada, mas desconfio que não é isso que está em pauta. Minha impressão é que é um clichê mais voltado para passar a ideia de que se é alegre e feliz o tempo todo, além de altamente egocêntrico. Mas é tudo só isso mesmo, impressão.

Só que o que mais assusta é outra coisa, é que todo mundo agora se diz mãe ou pai de um príncipe ou uma princesa. Não são mais vistos apenas como filhos, meros plebeus, que terão de lutar pela vida e aprender a lidar com as frustrações da existência. Não, nada disso, hoje são príncipes, e isso me dá o medo de que esses seres humanos possam crescer com a ideia de serem nobres, superiores, cheios de direitos e poucos deveres, crentes que o mundo existe para lhes servir e satisfazer suas vontades e expectativas, sem que se esforcem por nada. Mas, de novo, semelhanças são só coincidências, não é mesmo?

Mas para não ficar de fora do mundo, para aumentar a minha própria cota de clichês, conjecturo que toda essa conversa mole talvez não passe de chatice de um virginiano com ascendente em capricórnio vivendo o ano do rato de metal, que deixa o humor ainda mais ácido.

Capisce?


Zé Mauro Nogueira


terça-feira, 17 de setembro de 2019

Muito além de notas escolares!




São vários os textos neste blog bissexto sobre meu filho. Sempre fui um cara errático, confuso, e acho que é na paternidade que acabou se concentrando a minha capacidade de ser estável, comprometido, consistente. Não deve ser por acaso que ser pai é a parte de mim que mais gosto.

No último sábado, dia em que eu completava 51 anos de vida, Pedro chegou com o convite para a solenidade de entrega do certificado de aluno destaque do colégio. Logo emendou: “Não quero que você vá! Minha mãe vai, mas não há nada que eu possa fazer quanto a isso”.

Ao invés de ficar chateado, abri um largo sorriso. Mais uma vez vi ali um bom pedaço de mim mesmo, já que sempre evitei levar meus pais ao colégio seja por que razão fosse (na verdade minha mãe; meu pai não fazia parte da minha vida mesmo).

Dei os parabéns, falei do meu orgulho por tudo, não apenas pelas boas notas escolares, e o deixei à vontade para viver o momento da forma que se sentia mais confortável, sem nenhum tipo de ressentimento, apenas feliz por ele. Exatamente como minha mãe fazia comigo.

Não que haja nada de errado em ir e pronto, como faz a mãe dele. Até gosto disso e acho engraçado. É uma outra forma de se posicionar e é nessa mistura de estilos que ele cresce equilibrado e seguro para enfrentar o mundo. Não há certo ou errado quando o assunto é demonstrar o quanto nos importamos. Sorte dele, afinal.

Ontem à noite, contudo, me manda um whatsapp: “Pai, andei pensando. Pode ir amanhã na solenidade”. Abri outro sorriso. Não apenas pelo prazer de ir vê-lo subir a um palco para saborear uma conquista, mas por perceber no gesto um cara aprendendo a lidar com os sentimentos de uma forma mais ampla e generosa.

Parabéns, Pedro!



Zé Mauro Nogueira




sexta-feira, 1 de março de 2019

A capa da invisibilidade




Imagine um gadget que deixa você invisível, que te permite conviver com as pessoas sem ser visto, a la Harry Potter. Talvez você nem se dê conta, mas é provável que tenha um e use diariamente sem nem perceber. Eu uso uma capa da invisibilidade!

Tem ficado cada vez mais claro para mim que a maioria de nós só sai de casa usando uma delas. São pouquíssimos que se permitem ser vistos como, de fato, são. Em público projetamos uma imagem, vivemos sob um escudo protetor para salvaguardar nossos frágeis egos. Hologramas distorcidos esforçando-se para serem amados e respeitados, no fundo apavorados de serem desmascarados, revelados em sua vulnerabilidade.

A cultura do consumo, a mídia, nossos pais, todos tentam nos vender a falsa ideia de que somos todos especiais, líderes, fodões, infalíveis! O advento dos coaches talvez seja o ápice disso. Você pode ser tudo o que você quiser, dizem, repetem e insistem. Querer é poder, o sucesso está aí para todos, martelam convictos.

Mas não é bem assim. O fato é que somos todos imperfeitos, limitados, lidando com medos e desejos biológicos contrapostos à cultura e à moral. É certo que a maioria de nós tem algum tipo de talento, de potencialidade específica. E descobrir e desenvolver isso talvez seja mesmo a chave para uma vida mais completa, mas isso não torna ninguém “diferenciado” dos outros, apenas individual, apenas diferente. Porque é isso que somos, todos diferentes e únicos.

Essa pressão por ser o número 1, por ter sucesso, por ser feliz 100% do tempo, tem sido forte demais, sobretudo em tempos de redes sociais. Você precisa viajar o tempo todo, beber vinho o tempo todo, ter um SUV novo na garagem, morar em condomínio de luxo, ter um corpo sarado e frequentar lugares “diferenciados” (de novo e de novo entre aspas; odeio essa palavra e a ideia por trás dela).

Penso que uma das consequências de todos usarmos nossas capas é a quase ausência de contatos reais, de conhecimento verdadeiro dos que nos cercam. Uma pobreza generalizada nas trocas, nos sentimentos. Com medo de quebrarmos a cara vez por outra, acabamos vivendo assim, em milhões de tons de cinza, ao invés das cores de Almodóvar.

Mas, quem sabe, um dia a gente troque de relíquia da morte? Aposentemos a capa da invisibilidade e passemos a usar sem moderação a pedra da ressurreição. E primeiro em nós mesmos!


Zé Mauro Nogueira




segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Arte e paixão


Olhei pelo retrovisor e a vi parada sob o luar, sozinha, imóvel dentro da calcinha. Minhas tripas se retorceram. Me senti doente, inútil, triste. Estava apaixonado.
Charles Bukowski



Tenho mostrado ao meu filho alguns dos bons filmes lançados nos últimos 20, 25 anos. Mais antigos que isso ele ainda torce o nariz. Um dos que eu revi com ele recentemente foi Diário de um Jornalista Bêbado, baseado no livro e na vida de Hunter S. Thompson.

O personagem central, Paul Kemp (Johnny Depp), é um novelista fracassado e um jornalista bêbado escrevendo horóscopo em um decadente jornal em Porto Rico. Em determinado momento ele diz: “não consigo escrever como eu mesmo”.

Acho que disso se trata a arte, afinal. Encontrar a própria voz, colocar para fora esse turbilhão de sentimentos e contradições que inunda a alma humana. Ou pelo menos a de alguns.

Seja na literatura, na música, no cinema, onde for, não acredito ser possível fazer boa arte sem alma, sem paixão e sem alguma dose de angústia.

Bom exemplo é Vinícius de Moraes. Tônia Carrero traduziu perfeitamente a dinâmica do poeta ao perceber que a poesia dele dependia do precipício da paixão. De que outro jeito seria possível escrever algo assim? Amo-te como um bicho, simplesmente, de um amor sem mistério e sem virtude, com um desejo maciço e permanente. E de te amar assim muito amiúde, é que um dia em teu corpo de repente, hei de morrer de amar mais do que pude.

Qualquer coisa fora disso é só técnica, é intelecto, é racionalização, vaidade ou atividade comercial. Não acredito em arte feita como negócio, para vender simplesmente. 


Voltando ao filme, Kemp está bebendo em um pedalinho sob uma noite de lua cheia no mar do Caribe, entregue ao seu caos cotidiano, quando surge a espetacular Chenault (Amber Heard) nadando nua ao seu lado. Quando ela vai embora ele sentencia desamparado: Oh, Deus, por que ela tinha de aparecer? Eu estava tão bem sem ela!


Zé Mauro Nogueira



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Rodo cotidiano


Costumo levantar cedo, durmo mal, e quando olho o celular, quase sempre já tem whatsapp em algum grupo repleto de ansiosos tentando parecer eficientes e dedicados a alguma coisa. Dá vontade de dizer sosseguem, vão dormir.

Isso já irrita um pouco o sujeito. Sei lá, acho que tem hora para tudo, nunca compactuei com essa coisa de que é cool ser workaholic. E lá se foram duas palavras em inglês na mesma sentença. Até eu? É disso que estou falando, o rodo te arrasta se você não ficar atento.

Não é que eu seja vagabundo, já trabalhei muito. E ainda trabalho, tem algumas coisas bem legais no que eu faço, embora a parte chata já seja bem maior. E aquilo que eu gosto, acho que faço bem feito.

Mas é que não estou mais tão interessado em provar que sou foda, isso ou aquilo. E anda me faltando paciência para lidar com essa turma pilhada que quer ser fodona o tempo todo, que acha que tem resposta para tudo, controle em tudo. Libertador dizer um redondo não sei, às vezes.

Melhor ainda é arrumar tempo para se fazer outras coisas de que se gosta. Ou nem fazer coisa alguma, só respirar e existir por uns instantes, aproveitar a solidão de ser. Muita pressão essa coisa de ter de fazer algo interessante o tempo todo ou estar com alguém sempre.

Às vezes prefiro só isso, uma dose de Bulldog com tônica e uma música bem alta para ouvir sozinho ... there must be some kind of way outta here, there´s too much confusion ...


Zé Mauro Nogueira